A Fonte dos 1000 Desejos: 1 Milha, 1 Vida

[The Font of 1000 Wishes: 1 Mile, 1 Life]

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2017
Nylon wire, 1 and 10 euro cents coins, copper wire, fishing waste, clamp clips and self-adhesive tape
Approximately 551.2 x 216.55 in
Work installed in the Ílhavo’s House of Culture as part of Fazer Sentido’s exhibition, curated by Madina Ziganshina. This work was developed from the invitation of the Art-Map Moving Art Project, and its production received support from 23 Miles.

2017
Fios de nylon, moedas de 1 e 10 cêntimos de euro, arame de cobre, resíduos de pesca, grampos de aperto e fita autocolante
Aproximadamente 14 x 5,5 m
Trabalho instalado no Casa da Cultura de Ílhavo como parte da exposição “Fazer Sentido”, de curadoria de Madina Ziganshina. Este trabalho foi desenvolvido a partir do convite do Art-Map Moving Art Project, e a sua podução contou com o apoio do 23 Milhas.

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TEXTO

O tema inaugural do sentido desta peça, é a pesca do bacalhau realizada nos dóris. Nesta pequena embarcação, um solitário pescador distanciava-se do navio-mãe para lançar-se em um mar tenebroso, em meio ao nevoeiro. Visualizei esta perceção túrbida da atmosfera como um véu, uma camada entre o palpável e o virtual, que embora não cause uma total invisibilidade do espaço, serve como um obstáculo ao seu acesso.

Era longa a jornada diária no dóri; cronometrada por 1000 anzóis jogados às águas, estendia 1 milha de linha de pesca. Imaginar estes 1000 anzóis estirando 1 milha de linha no alto-mar, requereu-me esforço. Originou-se, assim, a minha intenção/missão de tornar visível esta saga, e por isso, tencionei 1000 fios. Além dos riscos e dificuldades implicados nesta quantidade alta em relação a um curto período de tempo, escolhi um material de complicado manejo e reconhecido banalmente na pesca, o fio de nylon. Ao submergir neste conjunto problemático, propus transportar-me, por instantes, ao lugar dos pescadores da faina maior.

Em troca da subsistência para si e para as suas famílias, estes pescadores arriscavam a deixar, no Círculo Polar Ártico, as suas vidas. Na primeira metade do século XX, já em meio a revoltas trabalhistas, a imprensa nomeou-os de “obreiros obscuros da economia nacional”, termo que me ofereceu a imagem dos fios de nylon tingidos de cor preta. Para estes civis com escassez de recursos, a faina maior era uma oportunidade de sustento económico, mas por outro lado ela era também, uma solução ministrada pelo Estado. A pesca resultante de condições insalubres e de infraestrutura precária, permitiu que a população portuguesa consumisse o bacalhau a um preço baixo.

A força destes operários explorados obteve êxito ante a superação de situações extremas, e assim eles transformaram-se em verdadeiros heróis nacionais. Um dos aspetos que torna este símbolo, monumental, abarca a dimensão de pequenez da vida a que cada um destes indivíduos era confrontado. Em consonância à domesticação das águas, destino e cosmos estavam por um fio. A presente instalação, assim, foi dotada intencionalmente de um carácter ótico, que intercala o grandioso ao frágil, o palpável e objetivo ao transcendental, o profundo à superfície.

Em meu processo criativo, costumo sobrepor distintos níveis de argumentação, para que o leitor os relacione de um modo próprio. A elaboração destas metáforas reitera o desenvolvimento do pensamento no cérebro, sendo este tipo de transposição, o método de construção dos mitos. Para relacionar o tema da faina maior ao do capital, utilizei a imagem da “fonte dos desejos”. Em nossa sociedade ocidental, é disseminado o ato de lançar moedas em fontes, como um ato de fazer voto a algo que desejamos. Estas moedas são encobertas por um poder de compra sobre o objeto ambicionado, assim como os pescadores dos dóris, mobilizados pela ânsia de uma vida melhor, submeteram as próprias vidas a um valor. Para cada fio de nylon preto existe, na base da instalação, uma moeda de 1 cêntimo de euro. Escolhi-a para traduzir a recompensa do pescador, quando regressa com vida à praia, em seu lar, no encontro com os seus familiares.

No centro desta peça, coloquei uma rede artesanal realizada normalmente e artesanalmente, por mulheres. Enquanto costurava pedaços destas redes desgastadas, reconheci gestos femininos repetitivos e insistentes, capazes de dissipar os seis meses que passavam sem avistar os homens e rapazes de suas casas. A composição de “A Fonte dos 1000 Desejos: 1 Milha, 1 Vida”, contrapõe a pesca com rede à pesca feita com linha e anzol. Na rede, situam-se 1000 moedas de 10 cêntimos de euro, valor superior que me parece incitar uma Nação enaltecida e reluzente, ou até mesmo, a espinha dorsal do País do Bacalhau.

As moedas que compõem esta instalação eram verdadeiras, mas ao serem invalidadas pela incursão de furos, perderam a sua função no sistema do capital. Com isso, além de noções sobre os limites entre os bens público e privado, suscitam-se questões referentes à definição e determinação do “valor”, e sobre a existência de outras importâncias que ultrapassam ou não são relativas ao dinheiro. As problemáticas inerentes a Poderes que tiram proveito da mão-de-obra humana, são um lugar-comum em nossa sociedade, e por isso, interessa-me disseminar reflexões sobre contextos complexos que são reiterados na atualidade. Mais do que estabelecer críticas unilaterais, ante questões de difícil resolução, procuro compartilhar a dificuldade de quebrar o ciclo com um posicionamento efetivo. Isso, sem ignorar a dimensão afetiva respetiva aos pares e ímpares, envolvidos.

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